Regidos por desejos alheios

Se você reparar bem, nossa vida é regida por desejos e necessidades que não estão sob o seu controle pessoal. Estamos condicionados a fazer, pensar e agir de acordo com a ideia de uma cultura sutil e invisível, de que você não deveria fazer o que realmente deseja em seu interior. Digo, você não sairia de casa hoje para trabalhar pelo seu próprio desejo, mas pela necessidade de ter que comer e precisar do dinheiro para tal. Mesmo que você adore seu trabalho e realmente o faça com prazer, muito provavelmente (chuto dizer que pra a maioria das pessoas), você não escolheria ir trabalhar, mas fazer qualquer outra coisa mais prazerosa e gratificante. Digamos que você não dependesse do dinheiro pra comer ou comprar qualquer outra coisa que necessite ou deseje, você poderia simplesmente fazer o que der na telha. Isso seria, talvez, a definição de liberdade… ou férias. Não quero também limitar à desejos que precisam de qualquer valor monetário para serem adquiridos. Mas até mesmo desejos de coisas intangíveis e não materiais.

Mas o que quero dizer é que invariavelmente estamos à mercê de desejos alheios, que nos são impostos por puro desejo da “vida”.

Aquela mãe de família que acorda cedo pra preparar o café dos filhos, e que deve se preparar para jornada diária, quando chega o final do dia seu único desejo se limita a ir direto para uma cama confortável, mas ainda precisa dar atenção à sua família e fazer alguns deveres antes de se deitar. Como seres humanos entendemos que o “certo” a fazer antes de cuidar de si, é saciar os desejos do destino escolhido, retraindo o seu próprio desejo. É isso que me refiro a ser totalmente dominado e regido pelos deveres e desejos que lhe foram impostos, não apenas por pessoas, mas pela regra geral da vida.

Não estou considerando aqui que determinadas coisas são ou não são descartáveis ou essenciais, mas que precisam ser feitas pelo motivo simples de que são inerentes à natureza humana ou do percurso da vida comum, e que por isso essas coisas devem ser feitas obrigatoriamente por nós quando assim impostas pelas circunstâncias. Contudo, existem uma série de outros momentos onde nos colocamos à disposição dessas tarefas, necessidades e desejos que poderiam ser evitados. Desde coisas simples como evitar multas de trânsito, até coisas mais complicadas como estar presente em um compromisso social e que certamente notarão sua ausência.

É uma dificuldade do ser humano fazer o que realmente lhe der na telha e mesmo quando estamos exercendo nosso direito de fazer o que dá na telha, somos controlados por algum fator externo, que mexe com nossos instintos mais básicos. É disso que o marketing vive.

Logo, a máxima dita por Epicuro em sua carta a Meneceu, onde ele discorre sobre a felicidade, se transforma numa das verdades mais absolutas do mundo: “o que importa não é a duração, mas a qualidade da vida.” Essa citação é um tapa carinhoso em nós, escravos dos desejos alheios, que permitem que pessoas, instituições, consumo e qualquer outra coisa, controle seu tempo, saúde e dinheiro.

Também não digo para vivermos em retidão, diminuindo ao máximo os nossos bens ou desejos. Isso seria exatamente uma confirmação do controle que esses fatores externos (e internos) tem sobre nós. Só o fato de tentar ignorar alguma coisa, já mostra que ela te impacta de alguma forma. Daí vem a minha ideia de que precisamos praticar a indiferença e não a ignorância. Quando praticamos a indiferença sabemos viver com o que nos incomoda. Agora, se tentamos ignorar o que nos incomoda, atestamos que determinada coisa nos impacta de alguma forma. Viver em retidão, com o mínimo de tudo, é confirmar e ter consciência de que a maioria das coisas do mundo tem um impacto (provavelmente negativo) na sua vida, e por isso você precisa ter uma atitude tão impactante quanto para neutralizar essa força contrária. Logo, quero dizer que talvez, se vivêssemos de forma simples, não ao extremo, mas também não de forma luxuosa, talvez alcançássemos uma conveniência saudável entre usufruir de algumas facilidades, e ainda diminuir o impacto do controle negativo que estamos comentando.

C. S. Lewis diz em seu livro “Abolição do Homem”: “Porque o poder do Homem de torná-lo aquilo que ele quiser na verdade significa, como vimos, o poder de alguns homens de fazer o que eles quiserem de outros homens.”

A tarefa seria não virarmos súditos dos desejos de outros, ou os nossos próprios desejos, que nos desviem do que realmente queremos fazer. Do que nos dá prazer. Do que não nos manipula. Contudo, seria importante ficar do lado do que nos ajuda a forjar nossa consciência. O nosso único desejo seria viver como bem entendermos. E se isso for ceder aos desejo e às necessidades de outros, que seja feito com consciência.

Eu sei que é uma viagem esse texto. Mas estou vindo de alguns dias de sono prejudicado por conta do nascimento do meu filho e com certeza isso deve ter me afetado de forma que meu único desejo agora seja dormir, por isso essa divagação provavelmente sem sentido.