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February 1, 2022

Um pouco sobre startups e seus cenários

Não digo que os PMs são pessoas de negócios, pois se fossem, viveriam em um conflito de interesses eterno. Contudo, os PMs têm uma obrigação de conhecer profundamente o negócio da empresa, entendendo quais as suas fontes de receita, cadeias de valor, concorrentes e posicionamento no mercado. É importante que o PM saiba quais os pontos fracos do negócio, quais os pontos fortes, entenda como ciclos econômicos influenciam a receita e a operação da empresa. Com isso à mesa, gostaria de fazer uma divagação sobre o estado geral das empresas de produtos digitais no mercado, não me apegando a um negócio ou a uma empresa específica, mas sobre como as empresas de produto e tecnologia, sobretudo startups, estão operando atualmente.

A Bolha dos anos 2000

Quando comecei, a bolha tinha estourado há pouco tempo, por isso, nem senti o impacto. É como se fosse renda variável: tive a sorte de comprar a web na baixa.

Na época da Bolha da Internet, o Brasil não tinha muitas empresas que baseavam seu modelo na Web. Algumas empresas conhecidas como Cadê, Buscapé e Submarino (que até 1999 era chamada de Booknet) sobreviveram. Nos anos 2000, em plena bolha, foi o ano em que empresas como o iG e a Globo.com foram lançados.

Nenhuma dessas empresas era listada na bolsa, por isso o impacto aqui no Brasil foi muito suave, não sendo destrutivo como lá fora. Aqui a bolsa chegou a cair “apenas” 25%. Para você ter uma ideia, em 9 outubro de 2002, a Nasdaq - que é o índice onde as maiores empresas ponto-com estavam e estão listadas até hoje - fechou em 1114 pontos, uma queda de 78% em 30 meses.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Dot-com_bubble#/media/File:Nasdaq_Composite_dot-com_bubble.svg

Um dos grandes motivos da formação dessa bolha foi a rápida popularização e utilização da web. Os PCs já eram bem populares na época. Só para lembrar: a primeira versão do Macintosh foi lançada em 1984. Então, quando a rede mundial de computadores (adoro esse termo) foi lançada em 1991 e depois em 1994 o Netscape, o uso da internet subiu de 10% em 1995 para 50% nos anos 2000 (nos Estados Unidos).

Com a evolução constante dos computadores, e do software que vinha embarcado, a web se popularizou rápido demais, aumentando a especulação de que empresas de tecnologias com foco em web realizariam lucros futuros. Para você ter um contexto dos números extravagantes:

  • Em 1997 a Microsoft, em uma das primeiras aquisições da época pré-bolha, comprou o Hotmail por USD$ 400 milhões;
  • Se você acha que o Spotify é inovador, em 1999 a Broadcast.com foi comprado pelo Yahoo! por USD$ 5.9 bilhões;
  • O Yahoo! também comprou a GeoCities por US$ 3.57 bilhões em Janeiro de 1999 (para fechar o GeoCities em 2009);
  • A Mattel comprou em 1999 a The Learning Company por USD$ 3.5 bilhões e vendeu um ano depois por apenas USD$ 27 milhões;
  • Em Janeiro de 2000, a AOL anunciou que ia comprar a Time Warner por USD$ 182 bilhões;

Toda essa especulação fez com que uma série de empresas - sem qualquer tipo de planejamento ou modelo de negócio sustentável - fossem criadas apenas para “surfar a onda” e receber investimentos. O Alan Greenspan - que então era o chefão do FED (Banco Central dos Estados Unidos) - detectou essa disparidade entre o preço e o valor das empresas em 1996, cinco anos antes da bolha estourar. Essa “previsão” foi tão estranha que depois que a bolha estourou, ele precisou dar explicações para um comitê do Senado americano em Abril de 2000 sobre como ele sabia que essa bolha estava se formando. Foi aqui que o termo “Exuberância Irracional” foi cunhado.

Esse termo é usado até hoje para descrever o aumento irracional de preços dos papéis listados em bolsas pelo mundo. Esse termo também se tornou título de um livro do Robert J. Shiller, que explica um pouco sobre a formação como por exemplo a chamada Housing Bubble, que deu origem à crise de 2008.

Atualmente estamos vivendo a era dos Unicórnios. As evidências mostram que estamos revivendo momentos da bolha de 2000, video as aquisições e investimentos exorbitantes de empresas que não geram rentabilidade real, se focando em crescimento e não em sustentação. A pergunta é: estamos vivendo uma nova bolha? A bolha dos Unicórnios?

A Bolha dos Unicórnios

Para o Brasil tudo é muito novo. Não estamos acostumados a trabalhar em empresas que têm seu valor de mercado acima dos USD$ 1 bilhão. Essa é uma nova realidade, e não se engane, todos estão se acostumando. Se lá fora os Bancos e os Venture Capitals nadam de braçada em oportunidades, reais ou não, aqui ainda é muito difícil que os grandes Bancos invistam em empresas de tecnologia, embora bancos e investidores estejam cada vez mais se aventurando.

CBInsights têm uma lista de unicórnios pelo mundo. Você vai perceber que a maioria vem dos Estados Unidos e China. Algumas dessas empresas vêm da Índia e podemos contar nos dedos as empresas brasileiras que fazem parte desse grupo de unicórnios.

Direto da planilha da CBInsights, há dados de 15 unicórnios brasileiros:

*Fonte:* The Complete List Of Unicorn Companies (cbinsights.com)

Uma curiosidade: muitas grandes startups (unicórnios ou não) não foram fundadas por brasileiros, embora algumas delas tenham brasileiros como cofundadores. Só para citar algumas:

  • Loggi, fundada por Fabien Mendez, francês;
  • Nubank, fundada por David Vélez, colombiano;
  • CargoX, fundada por Federico Vega, argentino;
  • Rappi, fundada por Felipe Villamarin, Sebastián Mejía e Simón Borrero, colombianos;

A Europa não fica atrás

Mas embora a China e os EUA liderem essa lista de empresas ultra valiosas, a Europa tem também corrido atrás do prejuízo. Em um artigo da Bloomberg, mostra que a Europa passou os $100 Bilhões em funding de startups no ano de 2021.

Mais de 320 empresas na Europa já valem mais de USD$1Bi.

E quando se trata de startups em early-stage, a Europa já alcançou os Estados Unidos no último ano, dominando 33% de todo o capital investido globalmente.

Distorção e distopia de pessoas e salários

Aqui no Brasil ainda estamos nos acostumando em como lidar com esse tipo de fenômeno. O efeito desses grandes investimentos é uma distorção muito grande para ser ignorada e que pode causar distopias permanentes e dolorosas em um mercado que estava crescendo de forma saudável (embora devagar), mas que de repente se viu em uma evolução exponencial.

*Second, you suddenly see people in traditionally high salary (low risk) professions such as investment banking, management consulting and law jumping ship and founding or joining start-ups. Really happy for them if they see an opportunity to “live the entrepreneurial dream,” but I have seen it before, and in many cases it is unfortunately just a sign of jealousy of all the money that is rumored to be made in the start-up world. Believe me, it is not as easy as it looks. —* *Nicklas Bergman, https://www.forbes.com/sites/cognitiveworld/2019/02/25/tech-startups-is-it-a-bubble-wrap/#2c2fe4306d37*

A cadeia inteira é impactada quando avanços tão grandes acontecem em tão pouco tempo: desde funcionários que saem de suas atuais empresas seduzidos por salários estratosféricos e até a liderança que precisa, em pouco tempo, fazer as empresas crescerem de forma acelerada. Os salários para bons desenvolvedores e designers já são relativamente altos pois há uma competição com empresas gringas. Muitos ótimos desenvolvedores e designers que conheço foram para o Canadá, Alemanha, Holanda, EUA e Portugal. É muito difícil competir com uma empresa fora do Brasil por causa do câmbio, além do desejo bastante comum no mercado de tecnologia de morar no exterior.

Mas esse é outro assunto.

Concluindo

Não sou especialista. Mas, olhando assim de longe e tendo trabalhado em startups ou empresas que estavam prestes a abrir seu capital na bolsa, eu não acho que isso seja uma espécie de bolha, mas talvez seja o novo normal. Mas essa resposta só o tempo dirá. Quanto tempo? Sei lá. Quanto tempo todo esse dinheiro investido vai durar?

Sem falar nas novas startups que surgiram impulsionadas por novas tendencias como Metaverse ou tecnologias que atualmente ainda precisam de maturidade de utilidade para provar seu real valor.

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