Organizar a vida financeira das pessoas é mais importante do que dar cartão sem anuidade

Ou o que - na minha opinião - os bancos digitais, bancos tradicionais e outras fintechs deveriam estar se focando agora.


No final de 2016, a OCDE (Organização para a Cooperação e o DesenvolvimentoEconômico) fez uma pesquisa com o objetivo medir o nível de competência dapopulação adulta sobre temas que envolvem educação financeira, **e **o Brasilapareceu na 27ª posição de 30.

A medição do nível de letramento financeiro foi feita através de 21 perguntas,em três áreas: conhecimento, comportamento e atitude financeira.

Esse é o Ranking dos países que participaram da pesquisa de letramentofinanceiro promovido pela OCDE.

Trocando em miúdos: os brasileiros não conhecem os termos básicos financeiros,não sabem como, por exemplo, a inflação destrói seu poder de compra, nãoentendem como podem poupar ou quais os principais fatores da economiainfluenciam sua vida financeira ou pelo menos boas práticas para organizar seudinheiro.

Parte do problema pode ser resolvido antes

Sabemos muito bem que as escolas deveriam abordar assuntos de cunho financeirode forma prática. Aliás, existem vários outros assuntos importantes que nãoaprendemos de jeito nenhum ou ouvimos muito superficialmente nas escolas comopolítica, empreendedorismo e gestão.

Outro ponto é a importância que a influência dos pais tem nesse processo.Ensinar as crianças a lidarem com o dinheiro deveria ter alta prioridade paraos pais. É um assunto que impactará diariamente a vida quando seus filhoscrescerem.

Logo, embora as fintechs e outras instituições financeiras possam ajudar, oproblema pode ser amenizado e talvez até resolvido muito antes da pessoadeixar de depender financeiramente dos pais.

Embora a curiosidade das pessoas esteja aumentando, investir ainda é uma barreira

Já é sabido que grande parte dos brasileiros não tem o hábito de poupar ou debuscar novas formas de investimento.

Eu sei que para uma enorme parte da população, a ideia de investir éinconcebível, não por falta de vontade, mas pela situação. Fatores comocorrupção, salário miserável e impostos que corroem nosso poder de compra,dificultam muito o processo. Além disso, o brasileiro normal não tem educaçãofinanceira. Até mesmo as pessoas que talvez até podem guardar pelo menos umpouco por mês, não dão o mínimo de atenção para essa oportunidade.

In particular, the overall low level of financial literacy stresses the> importance of starting financial education early and, ideally, in schools. —pesquisa da OCDE

Dado esse cenário, onde o brasileiro médio não vai buscar conhecimento para tero mínimo de cultura financeira, há uma oportunidade única para as empresasajudarem — principalmente as novas fintechs — as pessoas na difícil tarefa deterem uma vida financeira saudável, e de preferencia com pouco trabalho.

Obter informações sobre nossa vida financeira é difícil

Há outro ponto importante, que talvez até justifique a falta de atitude daspessoas nesse assunto: é muito difícil, até mesmo para quem entende, obtere controlar suas próprias informações financeiras.

Eu sou uma pessoa extremamenteorganizada.Tenho planilhas que me ajudam a acompanhar meus investimentos e uso serviçoscomo o Organizze para controlar meus gastos diários. Além disso, tenho planospara guardar dinheiro em curto, médio e longo prazo. Manter isso tudo dátrabalho. Se eu não gostasse de fazer esse controle, certamente eu não perderiameu tempo tentando fazê-lo.

A basic knowledge of financial concepts, and the ability to apply numeracy skills in a financial context, ensures that consumers can act autonomously tomanage their financial matters and react to news and events that may have implications for their financial well-being — pesquisa OCDE

Os bancos que eu tenho conta — atualmente uso o Itaú e o Neon— não me dãonenhuma informação valiosa a não ser o extrato de entradas e saídas de dinheiroda minha conta.

E é aqui que os bancos digitais poderiam fazer a diferença. Não apenas por seremdigitais, mas por terem uma cabeça mais nova e se moverem mais rápido do que osbancos tradicionais.

Informação é mais importante que TED grátis

Todos os bancos digitais, sem exceção, tentam se diferenciar dos bancostradicionais, deixando de cobrar taxas e mensalidades em serviços comotransferências ou cartões de crédito.

Óbvio que eu adoro não pagar para fazer TEDs ou não ter anuidadeno meu cartão decrédito. Mas o que realmente ajudaria a mim e as pessoas a serem felizesfinanceiramente e a se sentirem no controle do seu dinheiro, seria terinformações que permitissem o entendimento do seu comportamento financeiro.

Índice com pontos que as pessoas julgam importantes para ter uma vida melhor.

O Itaú, Bradesco, BB e outros bancos tem informações do comportamento financeirodo Brasil inteiro. Seria muito interessante se eles usassem esses dados para meajudar a reestruturar minhas despesas, me avisando, por exemplo, que eu estoupagando mais caro de TV a Cabo que a média das pessoas e que eu poderia ligar naNET pra renegociar. Ou se eles me ajudassem dizendo que eu poderia guardar umdeterminado valor, se eu parasse de gastar com X ou Y.

O que os bancos digitais deveriam estar fazendo hoje

Essa é minha opinião e acho que talvez você possa ter uma visão diferente, masoferecer TEDs infinitos ou não pagar mensalidade de cartão é o básico que umbanco digital pode fazer, dado que é possível ganhar dinheiro de outras formas,sem onerar o cliente. O próximo passo seria ajudar as pessoas a se educarem ea tratarem o dinheiro com mais respeito e atenção.

Serviços como o Organizze e Guia Bolso tentam ajudar a organizar a vidafinanceira das pessoas e por isso eles são importantes — acho que esses tipos deserviços serão a próxima nova moda em breve, pois eles têm o poder de darinsights importantes sobre o comportamento financeiro das pessoas, embora não ofaçam hoje. Atualmente eles ainda são passivos, fazendo apenas o básico que épraticamente a categorização dos seus lançamentos, deixando pra mim praticamentetodo o trabalho de analisar os números e tirar conclusões do que eu poderiafazer para equilibrar melhor minhas contas.

Os bancos digitais deveriam ajudar as pessoas a serem mais donas do seu dinheiro, disponibilizando informação e meios para as pessoas conheceremseus hábitos financeiros.**

Enquanto em alguns países o Open Banking éum assunto já estabelecido eprático,aqui no Brasil pouquíssimas empresas têm tido alguma atitude real. Por incrívelque pareça, o Banco do Brasil foi um dos primeiros a lançar algumacoisa de verdade.

Eu amaria conseguir fazer transferências e pagamentos diretamente pelo Organizzeclicando em um botão, sem precisar entrar na interface do meu banco.

Logo, pra mim, eu acho que os bancos digitais (e qualquer outro banco) deveriamestar prestando atenção em:

Quando os bancos digitais entenderem que o foco é ajudar as pessoas a viverembem, ensinando-as a fazer uma gestão melhor do seu dinheiro, eles ganharão acorrida contra os bancos tradicionais, pois eles estarão ajudando as pessoas aterem mais controle sobre seus hábitos financeiros, ensinando a serem donas doseu dinheiro.

Mas você está dizendo que os bancos deveriam parar de se focar em simplestarefas bancárias?

Sim. O que os bancos nos oferecem hoje, principalmente os bancos digitais, sãocommodities. Poucos bancos dão algum tipo de diferencial de verdade: vide oNeon, por exemplo, que tem uma feature chamada Objetivos, que permite o usuárioseparar seu dinheiro em “caixinhas”. Já o maior diferencial de outros é ter taxazero, só.

Um exemplo brasileiro é a Diin que está para sair. ADiin quer ajudar as pessoas a organizarem a sua vidafinanceirae com o dinheiro que sobrar, ela quer ensinar as pessoas a pouparem. Ninguémconsegue poupar/investir sem antes se organizar financeiramente e a Diinentendeu isso.

Outro exemplo gringo incrível é aEmpower,que promete ajudar os usuários dando análises e reports dos seus comportamentosfinanceiros.

Eu compreendo que mercado está num momento onde o diferencial é facilitar astarefas bancárias e talvez o mercado brasileiro nem esteja pronto para o tipode mindset que empresas como a Empower se propõem. Mas eu acho, que tão logo osbancos digitais ofereçam todos os serviços bancários básicos, eles deveriamcomeçar a direcionar seu foco para o problema raiz dos usuários: controlefinanceiro. Daí fintechs como a Diin se destacam.

O futuro é sem banco?

Isso eu não sei. Mas com certeza será digital. Pense numa coisa: por que vocêprecisa da interface do internet banking do seu banco? Hoje você pode fazer umatransferência direto pelo teclado do seu smartphone, sem usar a interface dointernet banking (no caso, ideia genial do Itaú).

Acredito que num futuro bem próximo, haverá uma descentralização tão grandeenvolvendo movimentações financeiras que grande parte das transações serãofeitas fora das interfaces dos bancos. Daí os meios de pagamentos despontam comoo WeChat Pay, Ali Pay, Apple Pay, Samsung Pay e outras. E olha que essesserviços só fazem pagamentos.

Além disso, toda a história de mercados descentralizados orbita na ideia de quea maioria das ações dos usuários serão feitas sem depender de serviços ouempresas que tendem a centralizar serviços comuns como compra, venda, transaçõese etc, executando essas ações de forma descentralizada, muitas vezes seresolvendo peer-to-peer.

É um tema bem interessante e que nos ajuda a entender melhor como astransformações digitais ainda mudarão muito as nossas vidas.

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