June 10, 2020

Assistir Suits e Billions me deixa mal

Esse texto foi publicado muito antes na minha newsletter. Assine e entre para um grupo engajado de mais de 300 pessoas.


Um homem, de negócios, sério e muito inteligente entra em uma das salas do seu escritório em Nova York. A sala é da sua Coach pessoal (!). Ele começa dizendo: “- Quando eu cheguei a marca de 10 Bilhões, eu tive uma faísca de empolgação. Como se achasse uma nota de 20 dólares da calçada. E depois, nada. […] Tive um momento que vi a coisa toda, de cima, de dentro e de uma dimensão completamente diferente. Mas mesmo dessa perspectiva privilegiada, o que vi foi só feiúra. Talvez eu ainda não o tenha perdido, mas não houve nenhum sentimento de que tivesse vencido. Nenhum.”

Esse é o início de um diálogo de Bobby Axelrod com a Wendy Rhodes, da série Billions, que é uma das minhas séries favoritas. Fica ao lado (perde por pouco) de Suits. Eu sei. Calma. Vou deixar pra discutir séries boas (e ruins) em outro momento. Mas essas duas séries romantizam e glamorizam exatamente o que está me deixando profundamente doente e provavelmente você também, mas principalmente a sociedade moderna: o desempenho.

Eu conheci o termo sociedade do desempenho lendo o livro A Sociedade do Cansaço de Byung-Chul Han. Nesse livro, ele retrata de maneira objetiva e muito sintética, como as pessoas estão se tornando escravas delas mesmas e como isso as têm levado para um estado de doença neuronal.

Se antes existia demonização da hierarquia corporativa, onde o chefe do topo da pirâmide atordoava todos os outros níveis com diversos tipos de pressão, hoje esse “chefe” se tornou desnecessário, pois nós mesmos nos tornamos o nosso próprio carrasco.

Em um mundo onde Harvey Specter e Bobby Axelrod são ídolos, o gif animado do bom dia da família se mistura com as responsabilidades do trabalho. Nunca o escravizado ficou tão perto do seu senhor como atualmente, pois o seu senhor é você mesmo. A sociedade do século XXI é marcada por uma doença chamada desempenho.

“O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado.” — A Sociedade do Desempenho, Byung-Chul Han

Eu não sei você, mas eu estou exausto e sempre insatisfeito. Quando assisto a abertura de Suits com a música Greenback Boogie da Ima Robot, fico inflado por uma sensação/motivação falsa de que eu posso ser alguém tão perspicaz, comunicativo e influente (sem falar de bonito) quanto o Harvey Specter, mas quando o capítulo acaba e eu volto para a vida real, o choque é instantâneo. Por mais resultados positivos que eu consiga, por mais longe que eu chegue, eu ainda continuo insatisfeito com o meu desempenho. Mais inconformado fico com o (suposto) desempenho mediano de uns e mais inseguro pelo (suposto) desempenho incrível de outros.

Byung-Chul Han é taxativo sobre o quão as pessoas estão mentalmente desgastadas ultimamente por simplesmente perseguirem desempenho, seja no trabalho ou na vida pessoal. Essa situação é interessante porque, quanto mais tentamos alcançar patamares mais altos de desempenho, mais ficamos cansados, e quanto mais cansados, ficamos mais esvaziados de energia, o que nos dificulta cumprir com nossos objetivos. Isso cria um ciclo de progressivo de destruição.

Depois que Bobby Axelrod termina de dizer as palavras do início deste texto, a Wendy responde: ”- Você nunca se permitiria aproveitar… apreciar. Pois isso seria admitir que você se saiu bem. Que teve sucesso, que ganhou o jogo, que havia um lugar para pausar ou parar.” ”- É um jogo que pode ser ganho?” ele pergunta. Aí ela finaliza: ”- A resposta para isso é um axioma filosófico. Verdadeiro sem precisar de provas. Quando você decidir que ganhou, você ganhou. Até lá, não.”