June 15, 2020

Um breve pensamento sobre percepção, privacidade e nossos dados

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O maravilhoso Yuval Noah Harari explica como a humanidade chegou até aqui no seu livro chamado Sapiens. Um dos pontos mais importantes dessa trajetória foi quando o ser humano descobriu a agricultura. Quando todo mundo entendeu que uma simples sementinha podia se transformar em comida, foi o fim da vida nômade e o início da vida sedentária (em todos os sentidos). Em uma vida nômade as pessoas mudam de local de acordo com a comida, ameaças, tempo etc. Exatamente por causa disso, o acumulo de coisas se torna impraticável. Mas quando a comida não precisa mais ser procurada, pois você aprendeu a plantá-la e você não precisa mais arriscar a sua vida caçando para comer carne, pois aprendeu-se a domesticar animais, você ganha o luxo de se fixar em um local.

Agora que você tem um lugar fixo para morar, acumular coisas começa a ser uma boa ideia. Você passa a ter tempo para planejar mais e passa a ter tempo para produzir mais. Quanto mais se produz, mais acúmulo de recursos. Antes as pessoas compartilhavam mais suas coisas, ferramentas, comidas, roupas, exatamente porque não era possível todo mundo ter de tudo. Mas agora as pessoas podiam ter seu próprio cavalo, sua própria barraca, suas próprias ferramentas, seu próprio teto. Ter suas próprias coisas leva a criação inicial de uma hierarquia social: quem tem mais e quem tem menos.

A partir disso limites foram criados e restrições foram determinadas. Pegar uma coisa minha passou a ser errado, ainda mais sem permissão… Você pode ter a sua ferramenta, porque quer a minha? Entrar dentro da minha barraca sem permissão, passou a ser errado. Ter coisas nos leva ao primeiro nível da privacidade. Eu tenho meu próprio espaço. Um espaço individual, dentro de um campo coletivo. Eu tenho a minha privacidade.

Um novo formato de sociedade foi criado e a humanidade nunca mais foi a mesma… nem se quisesse.

Privacidade é um assunto complexo. E ficou mais em evidencia e a ponto de banalizar quando o mundo digital se tornou parte das nossas vidas.

Privacidade tem a ver com percepção

As pessoas, naturalmente, tem uma visão muito turva do que a privacidade representa na vida delas. A grande maioria não liga muito se houver uma câmera de segurança do governo pendurada num poste, mas com certeza a maioria delas ficaria constrangida e furiosa se essa mesma câmera estivesse dentro de suas casas. Mas e se elas nunca soubessem que essa câmera está ali?

Se não há um impacto negativo percebido, então a vida (quase) normal segue. Para evitar um pouco desse impacto negativo percebido, governos e corporações, inventam motivos vazios para tentar justificar as possíveis invasões de privacidade que possam existir. A câmera na rua, por exemplo, serve para aumentar a segurança pública. Mas e a câmera em casa?

No mundo digital essa percepção fica mais complexa. A câmera realmente está na sua casa. E não é uma simples câmera, mas vários outros meios que mostram muito de quem você é e quais os seus hábitos. Vai desde o seu smartphone, até a MiBand de USD$20 que você provavelmente tem no pulso. Todas essas “câmeras digitais” nos acompanham todos os dias (inclusive com a nossa permissão), e nós não ligamos muito… por quê?

Por que pensamos que não ligamos para privacidade?

As pessoas geralmente dizem que “eu não tenho nada para esconder, por isso não ligo se meus dados estão sendo usados pelo [coloque aqui sua rede social/serviço online favorito]“. Mas é importante entender que privacidade é diferente que segredo.

Um exemplo usado no texto do Fabio Esteves é que todo mundo sabe o que você faz no banheiro (ou pensam sabem o que todo mundo faz a maior parte do tempo lá dentro), mas você ainda assim fecha a porta, pois você quer privacidade. Isso acontece na sua vida pessoal digital também. Você não deixa todo mundo fuçar no seu WhatsApp ou ler seus emails. Pelo menos não é algo normal.

Outro ponto importante é que embora você não ligue que o mundo use os seus dados para ganhar dinheiro, você deveria ligar que outras entidades, principalmente políticas, usem seus dados para influenciar a sociedade. Esse é aquele caso clássico equivocado de “ah, mas eu sou um só, nem faz tanta diferença”. Sim, faz diferença. Com quantos milhões de likes de pessoas podemos influenciar uma eleição no país mais poderoso do mundo? Bom, depende. Talvez 80 milhões de pessoas sejam suficientes. Talvez mais? Talvez menos?

Com quantos likes eu descubro a sua personalidade?

Às vezes seus dados são apenas uma peça do quebra-cabeça e podem ser descartados depois que não são mais úteis. Veja: a Cambridge Analytica precisou usar os dados dos 80 milhões para construir um modelo de comportamento que pudesse influenciar o comportamento das pessoas. Com esse modelo construído, os dados se tornaram secundários e o modelo faz todo o trabalho. Tanto que eles dizem que os dados não existe mais, ou seja, foram apagados.

Essa abordagem foi usada também em um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Stanford e o do The Psychometrics Centre da Universidade de Cambridge. Em 2007 eles criaram um quiz chamado myPersonality, com algo em torno de 100 perguntas. Eles abriram essas perguntas no Facebook, onde algo em torno de 6 milhões de pessoas responderam. O resultado do quiz era o perfil de personalidade da pessoa. 40% das pessoas que responderam, concordaram em compartilhar outros dados pessoais com a pesquisa, como o comportamento das suas redes sociais, interesses, preferências e opiniões sobre outros assuntos.

Com esse amplo compartilhamento de dados, eles cruzaram os likes das pessoas com os resultados do quiz. Com esse cruzamento, eles criaram um modelo que consegue descobrir qual o perfil de personalidade - baseado no modelo OCEAN - das pessoas sem a necessidade de responder o quiz, apenas tendo acesso aos likes da pessoa no Facebook.

Outro estudo, usou os resultados de 70.000 pessoas que responderam a pesquisa do myPersonality e descobriu coisas como: é mais provavelmente que as pessoas que gostam do filme Clube de Luta, tem mais abertura para novas experiências que as pessoas que gostam do programa “American Idol”.

Encontrei essa tabela e várias outras informações nesse artigo do The New York Times. A tabela mostra um pouco das preferencias de certas personalidades.

MOST OPEN LEAST OPEN
Tom Waits musician Cheryl Cole musician
Salvador Dalí artist “The Hills” TV show
Björk musician Luke Bryan musician
“A Clockwork Orange” movie Adidas Football brand
Writing hobby Jason Aldean musician
MOST CONSCIENTIOUS LEAST CONSCIENTIOUS
Running hobby Bring Me the Horizon musician
“Private Practice” TV show Escape the Fate musician
Traveling hobby “Adventure Time” TV show
Cooking hobby Minecraft Game
Hiking hobby “The Skins” TV show
MOST EXTROVERTED LEAST EXTROVERTED
DJ Pauly D musician Anime
Michael Kors brand Nightwish musician
Waka Flocka Flame musician Manga
JWoww TV star Video Games hobby
Gucci Mane musician Drawing hobby
MOST AGREEABLE LEAST AGREEABLE
Casting Crowns musician Marilyn Manson musician
The Bible Rammstein musician
God Placebo musician
Rascal Flatts musician Judas Priest musician
Relient K musician “Californication” TV show
MOST NEUROTIC LEAST NEUROTIC
Placebo musician “SportsCenter” TV show
Escape the Fate musician ESPN TV network
Bring Me the Horizon musician Derrick Rose athlete
Marilyn Manson musician Miami Heat sports team
The Smiths musician Football sport

Fonte: https://www.nytimes.com/2018/03/20/technology/facebook-cambridge-behavior-model.html e Michal Kosinski, Stanford University

Privacidade te ajuda ser quem você é

A privacidade é um aspecto inseparável da vida humana. É uma das coisas que te formam como pessoa. É algo interligado de forma intrínseca ao nosso comportamento e relacionamento com outras pessoas e com a sociedade. Por isso o impacto é muito maior do que você ficar vergonha do que as pessoas iriam encontrar no seu WhatsApp.

Tem bastante a ver com julgamento das pessoas sobre o que você realmente pensa, de quem você realmente é. Cá entre nós, mesmo que as pessoas sejam sinceras, sensíveis e honestas ao expor uma opinião, elas nunca expõe toda a opinião e nunca são tão sinceras quanto elas poderiam ser realmente. Elas não querem cair no julgamento público das pessoas mais próximas ou de pessoas que elas nem conhecem. Elas não querem machucar as outras pessoas. Não querem ser mal interpretadas.

Embora possamos achar um absurdo que pessoas físicas leiam nossas cartas antes de serem entregues, não temos o mesmo sentimento quando o governo, empresas, marqueteiros e outros meios fazem isso de forma automática, lendo nossos comportamentos online e integrando esses dados para descobrir quem realmente somos. Pelo contrário, nós até ajudamos nessa empreitada compartilhando nossas informações, acompanhando e interagindo com outras pessoas por meio das plataformas online.

Além disso tudo, existe um preço a se pagar para manter sua privacidade online em dia e ainda assim usufruir das bonanças que o mundo digital oferece. Se você não expõe seus dados nas plataformas, você perde oportunidades de emprego. Você não pode usar ferramentas que aumentariam seu desempenho no trabalho ou ficaria mais difícil realizar projetos pessoais. Você perde o contato com amigos e familiares. O segredo é saber o seu nível de tolerância de exposição.

Concluindo

É comum não termos uma visão clara de quais são nossas prioridades mais intrínsecas.

Mas com certeza nós valorizamos outras coisas mais do que nossa própria privacidade online. E valor pode ser algo relativo. Assim como a palavra poder, que também tem uma má interpretação pelas pessoas. Mas isso podemos deixar para outro texto.

Referências