June 24, 2020

Sobre Jardins Murados

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A Web foi criada por apenas um motivo: compartilhar informação. Na época, Tim Berners-Lee trabalhava no CERN. O problema que eles tinham lá era que os dados usados nas pesquisas ficavam em computadores que não se comunicavam direito ou eram dados que precisam de programas específicos, e que não estavam instalados em todo o lugar. Era muito difícil compartilhar informações com outros membros do time que estavam em lugares diferentes. Então, a ideia era deixar essa informação - sobretudo as informações de texto e imagem - em um formato que pudesse ser facilmente acessível.

“In those days, there was different information on different computers, but you had to log on to different computers to get at it. Also, sometimes you had to learn a different program on each computer. Often it was just easier to go and ask people when they were having coffee…” — Tim Berners-Lee, https://webfoundation.org/about/vision/history-of-the-web/

Naquela época, tecnologias como TCP, DNS hypertext e até objetos de font já existiam, então foi questão de desenhar um browser e colocar tudo isso junto. Pronto, em 20 de Dezembro de 1990 o primeiro site foi publicado sob o domínio info.cern.ch. Esse site era uma página explicando do que se tratava a World Wide Web e ficava hospedado em um dos NeXT do CERN (até aqui o Steve Jobs teve um dedo) que foi comprado pelo Mike Sendall, que era o chefe do Tim Berners-Lee.

One of the things computers have not done for an organization is to be able to store random associations between disparate things, although this is something the brain has always done relatively well. In 1980 I played with programs to store information with random links, and in 1989, while working at the European Particle Physics Laboratory, I proposed that a global hypertext space be created in which any network-accessible information could be refered to by a single “Universal Document Identifier” — Tim Berners-Lee, https://www.w3.org/People/Berners-Lee/ShortHistory.html

O que eu acho mais incrível dessa história, foi que em determinado momento, o Tim Berners-Lee tinha nas mãos a decisão de vender essa tecnologia toda. Ele poderia muito bem ter se escondido em algum lugar, lançado a bagaça e cobrado por isso. Devemos agradecer muito que o a Web foi criada pelo Tim Berners-Lee e não pelo Mark Zuckerberg.

Gaiola dourada

Desde a criação da Web, diversas instituições começaram uma corrida eterna pelo controle do fluxo de pessoas. Isso começou com os browsers lá atrás e hoje estamos vivendo uma guerra sutil e velada por controle de conteúdo. Se você tem conteúdo, você atrai pessoas, se você atrai pessoas, você tem a oportunidade de prendê-las no seu ambiente, e aí você ganha.

Enquanto a web foi criada aberta, para que todos possam usufruir do conteúdo compartilhado e motivar a criação de mais conteúdo ainda, existem serviços - como os do nosso amigo Mark - que tentam criar esse controle de fluxo.

Em um artigo em 2018 o próprio Tim Berners-Lee escreveu que a web está ameaçada hoje por motivos que vão “desde desinformação e propagandas políticas questionáveis até a perda do controle sobre nossos dados pessoais”.

Centralização é o nome do jogo

Não apenas a centralização de riqueza leva a centralização de poder, mas também a centralização do fluxo de conteúdo da web leva a centralização de poder. Hoje, grandes plataformas como Instagram, Facebook, Medium e até o pequeno Substack são plataformas que tentam dominar ao máximo o fluxo de conteúdo, se transformando em “gatekeepers”, controlando como esse conteúdo pode ser compartilhado e consumido.

No início o Medium era uma ótima ideia. Era um lugar que prometia cuidar dos escritores, dando uma plataforma completa para que escritores pudessem expor suas histórias, para que qualquer um pudesse escrever sobre seus assuntos prediletos. Mas a coisa não é tão linda assim. Existem algumas polemicas que vazaram que o Medium tem forçado autores e grandes canais a colocarem seus conteúdos sob paywall. Se você é leitor, já sentiu que a descoberta de novos conteúdos e as recomendações são uma enxurrada de artigos pagos.

Não sou contra paywall, pelo contrário: acho que isso deve existir de uma forma justa para os três interessados: leitores, plataforma e autor. Contudo, o controle deve também ser dividido nesses três pilares, não apenas pela plataforma. O Substack tem se mostrado uma plataforma bastante aberta e justa. Eles só ganham dinheiro se o autor começar a cobrar pelo seu conteúdo. Já tem pessoas que estão ganhando algum dinheiro usando essa plataforma e isso tem sido ótimo para fomentar que há outras alternativas além do Medium.

A economia digital gira em torno de tempo na plataforma. Quanto mais tempo você faz com que seu usuário passe na sua plataforma, mais propaganda você mostra, mais dados você captura. Só para citar um exemplo: o Instant View do Facebook e do Telegram servem pra isso. Obviamente, eles vendem isso como uma facilidade, e é mesmo.

O meu próprio comportamento de “navegar” na web mudou. Antes do RSS eu gostava de abrir meus favoritos e navegar nos websites. Era incrível pois eu começava em um site e quando via, por causa de um único link, eu encontrava websites que eu não conhecia. Isso era “navegar” na web. Depois o RSS veio para tentar ajudar na organização de consumo de informação. E depois os paywalls subverteram o RSS. O RSS faz você perder pageviews. Então, a saída é publicar no RSS apenas um resumo, para que o usuário leia o artigo completo no seu site. Desse ponto de vista, para que vai ser o RSS mesmo?

As grandes plataformas precisam criar barreiras que vão desde paywall até facilitar o embed de conteúdo de sites concorrentes nas próprias plataformas, para aumentar seu poder de concorrência.

Muito por isso eu costumo postar vários dos meus conteúdos em canais diferentes, além de centralizar tudo no meu blog pessoal. Mas nunca deixo apenas no Medium, nunca apenas no Linkedin. Mas distribuo em vários canais pois sei que pessoas tem o direito de escolher o canal que mais lhe agrada e traz conforto ou organização, por isso é importante entender como cada canal funciona.

Esse assunto é muito interessante e talvez podemos voltar nele em outros textos, o que você acha?

Estamos vivendo numa época de jardins murados. Jardins que mais parecem labirintos feitos para que te manter preso, subvertendo o principal objetivo da web: compartilhar informação.

Referências