Julie Zhuo, no podcast do Lenny em setembro passado, disse: "We need to dissolve the boundaries of these traditional roles and call ourselves builders. I'd love for us to get to the world where that's the title."
Ela tem razão sobre o movimento. Mas acho o rótulo errado.
Em janeiro de 2025 eu já tinha escrito sobre isso. No O papel dos PMs, Designers, Programadores está mudando e isso é incrível, eu falava do Nubank usando Devin AI pra fazer o trabalho de mais de mil engenheiros numa refatoração de ETL. Do Sahil Lavingia, da Gumroad, anunciando que só contrataria engenheiros generalistas e designers — sem PM, sem QA, sem DevOps. A execução já estava virando commodity. Isso não é leitura que a Julie trouxe. É leitura que já estava no ar meses antes.
Na minha visão, a Julie acertou o diagnóstico. Mas me incomoda o atalho que ela tomou pra descrever a saída.
O título "builder" descreve o efeito, não a causa
Quando você dissolve fronteiras e dá um nome único pra todo mundo, você captura uma coisa real: as pessoas estão cruzando disciplinas. Mas o título não explica o que elas ganham cruzando.
Ele nivela. E nivelar é o pior movimento possível no momento em que cada disciplina está sendo empurrada pra uma especificidade estratégica maior, não menor.
Vou falar disciplina por disciplina, porque essa é a parte que o framing genérico pula.
Programador não é builder. É arquiteto
Quando a IA absorve linha de código, o que sobra do trabalho do programador não é escrever menos código. É pensar no sistema. Escolher abstração. Desenhar onde a automação encaixa e onde ela quebra.
Programador deixa de ser escritor de código pra virar arquiteto de solução. Isso é mudança de nível, não de lateralidade.
Chamar ele de "builder" no mesmo balde que um PM é dizer que a diferença entre escrever código e escrever spec é cosmética. Não é. São profundidades diferentes sobre o mesmo problema. Um bom arquiteto entende de produto, mas o valor que ele agrega está na decisão técnica que vai sustentar o sistema nos próximos cinco anos.
"Builder" não captura isso.
Designer não é builder. Ou é front-end, ou é PM
Já venho argumentando há anos que a fragmentação da profissão de designer em UX, UI, Research, Content, Service é uma bobagem que o mercado criou por restrição operacional, não por verdade sobre a disciplina. Designer é uma profissão holística. Sempre foi.
Mas agora, com IA absorvendo prototipagem e iteração, a pergunta muda. Deixa de ser "qual subcategoria você é dentro do design?" e passa a ser: em que direção você vai descer mais fundo?
Vejo dois caminhos. O designer pode se aproximar do desenvolvimento front-end, operando a camada de implementação visual com mais autonomia. Ou pode absorver parte importante do que hoje é trabalho de Product Manager — entender problema, mapear oportunidade, conectar solução a contexto de negócio.
Os dois caminhos exigem profundidade diferente. "Builder" é uma não-escolha fantasiada de evolução.