Tem uma conversa rolando no mercado que diz que metade dos PMs vai sumir nos próximos dois anos. Eu acho que essa leitura está pela metade.
A IA não vai matar o Product Manager. Vai matar o PM-intermediário. A pessoa que passou a carreira inteira movendo informação de um lado pro outro, escrevendo PRD que ninguém leu direito, traduzindo Slack pra reunião e reunião pra Slack. Esse perfil acabou. E não foi a IA que matou. A IA só tirou o disfarce.
O PM-intermediário nunca foi PM de verdade
Marty Cagan vem chamando isso de Product Management Theater há anos: pessoas com o crachá de PM que, na prática, fazem trabalho de project manager glorificado. Coordenam reunião, atualizam roadmap, reescrevem ticket no Jira. Não tomam decisão sobre o produto. Não conhecem o cliente. Não conectam nada a impacto de negócio. Mas o título lá está.
Por anos esse modelo funcionou porque a empresa não tinha como saber a diferença. PRD escrito é PRD escrito. Roadmap atualizado é roadmap atualizado. A entrega chegava. Atrasada, fora de escopo, mas chegava. E enquanto a empresa crescia, ninguém parava pra perguntar se aquela função de "intermediário" estava gerando valor ou só repassando.
Agora ninguém precisa mais perguntar. A IA escreve o PRD em dois minutos, atualiza o roadmap automaticamente, e já está expondo quem fazia teatro de produto e quem fazia produto. Cagan é direto: pra muita gente, o uso de IA está só evidenciando o teatro, em vez de mostrar o potencial real.
Veja bem: o problema não apareceu agora. O problema sempre esteve lá. A IA só virou o holofote.
Mover informação não é gerar decisão
Existe uma diferença que o mercado finge não enxergar. Mover informação é tarefa mecânica. Gerar decisão é trabalho cognitivo. Os dois ocupam espaço no calendário. Só um cria valor.
O PM-intermediário se especializou em mover. Ele é a pessoa que pega a demanda da liderança e empacota num formato que o time aceita. Ele é a pessoa que pega a reclamação do time e empacota num formato que a liderança aceita. Ele é o filtro. E exatamente porque é o filtro, ele se tornou indispensável. Não pelo que decide, mas pela ausência que ele criaria se sumisse.
Ou seja, efetivamente, esse PM não decide nada.
E é aí que mora o desconforto. Porque agora a IA faz esse trabalho de filtro melhor, mais rápido e mais barato. Resumo de reunião, sumarização de feedback, geração de spec, análise de ticket, varredura de canal de Slack. Tudo isso era trabalho de intermediário. Tudo isso virou commodity em doze meses. E o intermediário descobriu que ser indispensável por ausência não é o mesmo que ser indispensável por valor.
O PM de verdade, aquele que decide o que construir, que escolhe o problema, que diz não pra dez pedidos pra proteger o um pedido certo, esse continua tão raro quanto sempre foi.
O que sobra do papel quando a execução vira commodity
A pergunta que importa é: quando a IA tira a execução, o que sobra do trabalho de PM?
Sobra três coisas, e nenhuma delas é genérica.