Dizem por aí que a IA vai acabar com o programador. Não vai. Na minha opinião, a IA vai substituir o programador ruim — aquele que nunca estudou os fundamentos, que não entende princípios imutáveis de construção de software, que passou a carreira inteira copiando trecho de código do Stack Overflow e chamando isso de trabalho.
Quem tem base vai ficar melhor. Muito melhor. Quem não tem, vai descobrir que acelerar sem saber o que está fazendo é uma das formas mais caras de produzir tecnologia.
E com designer é a mesma história, só que por outro caminho.
O que mudou de verdade
A mudança que a IA trouxe para o nosso dia-a-dia não é "agora todo mundo programa". É outra coisa: agora o designer e o PM conseguem prototipar em código, não só em Figma. Conseguem iterar até algo que parece bom, testar na prática, e entregar esse protótipo como ponto de partida para quem vai implementar de verdade.
Isso é superpoder. E deveria ser usado até o talo. Já tinha escrito sobre isso em O papel dos PMs, Designers, Programadores está mudando e isso é incrível — o ciclo natural de mudança de profissão sempre existiu, e essa rodada só está acontecendo mais rápido.
Eu já falei sobre isso em Os dois front-ends: designer e engineer, Designer e front-end, uma dependência ruim e, com mais peso, em O fim da profissão front-end como conhecemos hoje. HTML e CSS deveriam ser ferramenta de trabalho do designer, não código de programador. CSS é para designer. Sempre foi. O problema é que, durante anos, o mercado empurrou essa responsabilidade para o dev e criou uma fronteira artificial onde designer ficava com a imagem estática no Figma e o dev tentava adivinhar o resto.
A IA quebrou essa fronteira de um jeito que nenhuma metodologia de "design ops" tinha conseguido. Agora o designer mexe em código como quem mexe em argila — material de trabalho, testável, moldável, descartável se a hipótese não ficar boa.
O designer continua designer. Só ganhou uma ferramenta que o mercado tinha tirado da mão dele há tempo demais.
Essa distinção é mais importante do que parece.
O que não mudou (e não vai mudar)
A parte que ninguém quer falar é a seguinte: protótipo não é entrega. E entregar software que vai rodar em produção, que vai carregar o negócio nas costas por anos, continua exigindo exatamente o que sempre exigiu — fundamentos.
Arquitetura. Separação de responsabilidades. Testes. Performance. Segurança. Legibilidade. Decisões sobre onde o código se acopla e onde ele se desacopla. Entender por que uma escolha hoje vira dor de cabeça daqui a 18 meses.
Nada disso mudou. E nada disso vai mudar.
O que a IA faz é acelerar quem já sabe e amplificar o estrago de quem não sabe. Se o programador tem base, ele consegue pedir para a IA dez variações de uma solução e escolher a certa em minutos. Se não tem, ele aceita a primeira que rodou, comita, e segue em frente.
Por isso eu não acho que o problema central seja "cuidar da main". A main é só o sintoma. O problema é quem revisa, quem lê o código com olho de quem carrega a arquitetura na cabeça, quem sabe que "funciona" não é sinônimo de "está bom".
Quem estudou fundamentos vai revisar e pegar o que precisa mudar antes do merge. Quem não estudou, vai deixar passar — e não porque é preguiçoso, mas porque não vê o problema.
Não tem como ver o que você não aprendeu a ver.